terça-feira, 2 de março de 2010

Sinfonia K.


“Que Sol maravilhoso!” pensou Lana em mais um dia que a luz queimava suas sensiveis pestanas. Uma segunda feira tipica, com todos falando de futebol e coitos mal esclarecidos. Era a vida adulta contaminando os passantes, porém não tirava o ar ninfo da face de nossa donzela, que caminhava voltando de suas clássicas aulas de violino. Já dominava o instrumento coma destreza de uma boa musicista. E, sempre ao chegar em casa, costumava tocar o instrumento acompanhada pela vista do pai, Franz. Observava o soar das sinfonias com um sorriso clássico tipico de progenitor orgulhoso, porém temeroso, pois o hobby ganhava muito espaço e a faculdade de direito parecia um pouco largada ao desinteresse de sua criança.
Franz era mais um tipico povoador da classe média, mais um daqueles que escodem uma ofensa a deus, um estupro e algum crime de baixa penalidade em seus atos juvenis, entupido pelo conformismo de uma era, metamorfoseou-se de filho rico até farto tomador de tequilas salgadas com emprego repugnante no estado. Ao contrário da filha, não achava luz nos dias, desde que soube de virgindades extintas, perdidas com aquele clássico modelo de má indole residente nas esquinas. Isso gerava dores com sentimento de fracasso, afagados pelo sabor amargo do destilado. Mas a genialidade da música o ajudava a ver os olhinhos opacos de Lana, que soltava versos ao nada, quase que sem querer:
“K. Dormiu para Ter Pesadelos
dando prazer ao desespero...”
Só por simular curiosidade:
- Quem é K, querida?
- É uma barata!
- Você recita para uma barata?
- Mas ele não é qualquer uma, K. habita meus sonhos. Ele tocava meu violino e recitava isso pra mim...

Não interessava mais o sonho, meras ilusões juvenis cheirando a drogas ilicitas. Talvez mais uma decepção a se colecionar. A música cessou, e guardado o instrumento com seu arco de fios amarelados,a moça anunciou banho e saída em tom imperativo. Imaginou Franz que ela tivesse percebido que já se encontrava em ares ébrios. Desde a morte de sua esposa, já sabia da cara de altissima desaprovação da filha quando ele emborcava algumas doses. Engraçado que com o passar das gerações, os atos de Franz sempre causavam repúdio nos outros. A embriaguez como forma de libertação nunca era compeendida por seus antagonistas.
Enfiado numa vida de desespero, as vezes, deve-se apelar para o absurdo como cura. Nunca há motivos plausiveis, somente um impulso e motivos minimos como forma de ignição. E assim, nosso herói caminhou até a porta do banheiro e pediu que a filha saisse, ao destrancar da porta:
- Você não vai sair...
- Você está louco? Marquei com a Sol e Gaby... Tenho que ir...
- Porra! Você é surda? Você não vai a lugar nenhum...
- Me dê um Motivo pra tudo isso?

E o Motivo foi sentido em suas delicadas narinas com um forte tapa que a levou ao chão. Quando acordou estava enrolada em sua toalha ainda no chão do banheiro. Lana levantou-se meioq eu cambaleante e percebeu o pai caído no sofá de tão bêbado. Se a insanidade não precisava de motivos, ela agora superaria isso, tendo uma forte razão para pegar o arcod e seu violino e cortar os fios dourados, amarrando em seu lugar um pedaço de arame farpado enferrujado. Aproximou-se com delicadeza e acariciou o rosto de seu pai com frieza, escutando suas últimas pronuncioações ébrias:
- Você não vai a lugar Nenhum, sua rapariga!
E respondeu, pela primeira vez, em tom suave:
- Nem você, papai!
Posicionando o arco na altura do umbigo de Franz e deu seu primeiro acorde. Sentiu que o pai agarrou seu braço tentando impedi-la, mas logo agora que começaríamos nossa perfeita sinfonia carnal? Com o arco a altura do pescoço, Lana começou a rasgar toda carne paterna, jorrando o sangue seu pecador e emitindo uma sinfonia ditada por acordes de puro sangue poético:
“Franz Morreu para Ter Pesadelos
e Tenho prazer com seu desespero...”

Ass.: Uma Barata Chamada Mattüs

Um comentário:

  1. “K. Dormiu para Ter Pesadelos
    dando prazer ao desespero...”

    um momento, uma reação, uma morte.


    barata chamada HENRY ZEPHYRUS

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